segunda-feira, maio 22, 2017

ESPERANÇA IN MEMORIAM

ESPERANÇA IN MEMORIAM

Éramos seis, cinco gatos e uma humana, ás 04h33 min numa madrugada chuvosa e fria a última se foi.

Com a partida da Esperança foi-se a esperança de que somos algo além de um experimento “cósmico”. Percebi que vivemos numa prisão chamada Terra, nos deram um lindo planeta, mas colocaram mil dogmas, mil estórias de pecado, punições, culpas etc., e com o passar das eras, tudo isso nos tornou mais e mais servis e dominados pela ideia que não somos nada, tudo que fazemos não tem valor, vivemos, comemos, ás vezes sorrimos e depois vamos embora de preferência com bastante sofrimento, só assim ganharemos o “céu”, se não seguimos a cartilha, vamos viver no fogo eterno.

Há quem acredite nisso, o Criador já nos fez “defeituosos” para que tenhamos que nos corrigir, ele conhece cada fio de cabelo da minha cabeça, mas não conhece meu coração, então tem que me testar para ver se sou fiel a ele, humano demais, horrenda demais essas crenças.

Com isso nos tornamos cruéis, sem compaixão e vaidosos em demasia, toda pessoa controlada se torna violenta e desprovida de amor ao próximo.

Levantei-me com pressentimento que ela iria me deixar, porém, passou num dia relativamente bem, comeu duas vezes, tomou água etc., apesar de frágil parecia estar reagindo bem.

A noitinha deu sinais que iria partir, estive tranquila o dia todo, estava preparada para vê-la partir, mas nenhum amor da minha vida parte sem muita dor e sofrimento, e a Esperança quase superou a agonia do Miguel.

Teve um momento que achei que havia partido fui falar com minha cunhada, eu estava grata por ela não ter sofrido me perguntaram se ela que mais sofreu. Não, respondi, foi o Miguel e a Uriel, quando entramos no quarto ela estava imóvel e parecia que não estava mais ali, de repente “voltou”, apesar da agonia lutava para viver, assim como seus irmãos o fizeram, levantava-se, miava e insistia, queria viver, nunca vi um animal “meu” miar nessa hora.

Como sempre implorei para que não sofresse que fosse em paz, não bastava levarem o último tesouro que eu tinha ainda me fizeram assistir sua agonia. Muitos dirão por que não fiz a eutanásia para poupá-la disso, para mim seria covardia matá-la sem seu consentimento, todas as pessoas que conheço que o fizeram contam que eles sabem, eles imploram para viver, eu não podia como poderia matar um grande amor, um amor puro e cristalino.

Cada dia que passa me vem a certeza que não existe nada que nos ampare, se existisse como não teria compaixão de um animalzinho frágil, sofrendo e miando?

A desculpa do livre-arbítrio não se encaixa com eles, pois eles não têm livre-arbítrio. Enquanto ela agonizava eu pensava como são feitas as escolhas de quando se chega e parte deste mundo, devem olhar para aquele “feto” seja humano ou não, coloca-se um carimbo e diz: esse viverá tantos anos e partirá sofrendo atrozmente, esse partirá tranquilo e terá uma vida saudável etc.

Não há coerência alguma nisso, em especial para os animais que não tem o tal do livre-arbítrio e só conhecem o amor incondicional. Cada “religioso” virá com sua teoria, mas essa teoria só vale para o sofrimento alheio, de si mesmo e dos seres que ama em geral tem outra visão, o sofrimento alheio é sempre menor.

Viver e “morrer” para mim é algo natural, sabemos que iremos partir, porém, o sofrimento é algo desumano, desnecessário e cruel, não é verdade que o sofrimento faz as pessoas crescerem, o sofrimento anula a alma da gente.

Horas antes quando pressenti que iria embora, conversei muito com ela, lhe falei de quando a adotei, como mesmo tendo sido sempre livre se adaptou rapidamente em ficar presa em um quartinho com mais três gatos. Falei o quanto a amava e que ela podia partir tranquilamente que eu iria ficar bem e ela também, vá em paz querida a Juma, a Uriel, o Juca e o Miguel Arcanjo a estão esperando para brincarem livres e felizes sem dor, menti, achei que isso iria ajudar na sua transição, pois achei que seus momentos finais seriam tranquilos como o do Juca, estava esperançosa que iria tranquila por estar fraca, mas não, existe algo cruel que deve se comprazer com o sofrimento, depois não entendemos a crueldade do mundo, agora eu entendo, se uma frágil vidinha tem que sofrer assim, e dizem que há alguém que comanda o nascer e o partir esse suposto alguém é desprovido de compaixão.

A Esperança é o último elo de São Paulo, o último elo do tempo que eu me considerava “viva”, é a última de um tempo que eu tomava as decisões de quem poderia viver comigo, com ela se foi a “magia” do Copan, de Sampa e que amar, ter compaixão e solidariedade bastam, não basta, amar é apenas uma palavra oca, sem sentido, talvez por isso que o mundo está tão carente de amor, de compaixão e solidariedade.

Quando adotei a Juma já em meio as primeiras dificuldades financeiras, achei que meu amor e compaixão seriam suficientes, e assim foi com cada um deles. Nunca acordei e disse: queria tanto um gatinho, apesar de amá-los desde criança, nunca pensei em adotar nenhum, mas a vida apelou para minha compaixão, trouxe a Juma, o Juca Raphael, a Uriel, a Esperança e o Miguel Arcanjo, assim como os siameses, todos em situação de risco de morte, minha compaixão falou mais alto e eles entraram em minha vida de maneira abrupta, mas como um lindo farol a iluminar meu caminho.

Em meio a tudo isso a única coisa que valeu a pena é que eles me ensinaram muito sobre o amor incondicional, um dia eu estava em um lugar calmo e tranquilo que me fazia sentir um amor intenso por tudo à minha volta, então pedi que queria conhecer e viver o amor incondicional, anos depois eles foram chegando, e pude aprender e sentir um pouco desse amor , tão ensinado, mas pouco vivido por nós humanos. Eu pedi para conhecer esse amor, por acreditar que existia algo ou alguém que sentia esse amor por nós, por todas as formas de vida, enganei-me.

Apesar de tudo isso me dá um pouco de alívio em saber que, quando a acolhi e vi seus olhos marejados de lágrimas pedindo socorro pela perda de seus filhotes que foram mortos cruelmente, eu lhe prometi que nunca mais passaria por isso, teria um lar, e assim passaram-se quinze anos.

Acabei de enterrá-la ao lado do Miguel Arcanjo, embaixo de uma frondosa paineira, voltei com as pernas cambaleantes e o coração sem esperança, sem fé e cada vez mais triste, pensar que já acreditei em tantas coisas, segui tantas estórias, li centenas de livros, deixei o "mundo" para viver em Comunidade, recitei mantras, jejuei, meditei, orei, tive pensamentos positivos e tantas conversas “fiadas” do que é viver.

A dor maior não é não ter mais sua presença física, a dor é ter gravado na mente e na alma o sofrimento deles, isso ninguém poderá apagar, vou seguindo meus dias, tentando ser uma pessoa melhor, não para ganhar um prêmio quando chegar minha vez continuo treinando o amor, a compaixão e a solidariedade porque é assim que acredito que nós humanos devíamos ser, devo isso a eles também que muito me ensinaram.

Eu sempre disse que quando o último se fosse eu estaria pronta para partir, e estou, porém, tem os siameses, são “meus”, mas vivem um laço tênue de amor e separação. Isso é viver, não basta amar, não basta ter compaixão, não basta ser solidário, não basta sentir a dor do outro seja de um animal ou de um ser humano.

Vou continuar minha caminhada enquanto não chegar minha hora, não acredito em “milagres” vindos do céu, acredito no milagre do viver, mesmo triste e desiludida não deixar que isso ofusque meu amor, minha compaixão e minha humanidade pessoal.

Vou caminhar por esse mundo tentando ser o que acredito de devamos ser, não para agradar alguém que está nas nuvens, mas para fazer a vida dos que estão na Terra mais leve, mais justa e mais “feliz”.

Meu agradecimento eterno a Guilherme Franco que fez nossa caminhada mais leve, da Esperança e do Miguel, sempre pronto para nos ajudar. Gratidão.

Meu agradecimento a sua veterinária Drª Otília Link que nos acompanhou por um longo período, gratidão Dra Otília.

Meu agradecimento especial a Drª Andressa Mello que mesmo à distancia esteve segurando minha mão me orientando amorosamente na partida do Miguel e da Esperança, e antes de mudar-se cuidou de todos amorosamente sem nunca cobrar por saber das minhas dificuldades financeiras.

Meu agradecimento ao Boris Paternost Sperandio, você fez a diferença em nossas vidas, nos deu a oportunidade de ter esperança de que a Esperança teria qualidade de vida, não aconteceu, mas ela sobreviveu mais seis meses, se o nariz não tivesse sido operado com certeza seu sofrimento teria sido muito maior, gratidão eterna a você.

Minha gratidão a minha amiga Procura Procura-se Raja , Cris, que me ajudou a ter esperança com um novo remédio, mesmo à distância esteve comigo nos momentos finais. Gratidão Cris, infelizmente já passamos por isso muitas vezes e fomos nos auxiliando, pois conhecemos o que é a dor em ver um filho de quatro patas sofrendo, sofrendo e depois partindo.

O “meu” acabou ao menos em ver o sofrimento físico diariamente, o seu continua, e sabemos como finaliza, estarei aqui segurando sua mão invisivelmente como das outras vezes. Força, estarei sempre aqui.
Minha gratidão as veterinárias da zoológica Carmen, Tatiana e Marianne que nos receberam todos esses anos com carinho e atenção, transformaram os medos deles nos exames mensais e algo menos triste e traumático, gratidão.

Gratidão ao meu amigo Ivan Santos Tomé por ficar “filosofando” comigo nos momentos finais, até ali eu estava tranquila, apesar de ver que a velinha da vida dela estava se apagando, mas o sopro final foi longo, sofrido e angustiante, e eu já estava só, eu e ela em sua dor. Gratidão.

Gratidão a Carmen Silvia Nicotari, Jose Antonio, Lúcia Helena Lourenço e a todos que mandaram vibrações positivas para ela, que torceram por nós, agora só resta o silêncio, e a certeza que nenhum deles passou em vão por minha vida, eles estão cravados no meu coração e na minha alma para sempre.

Adeus Esperança, “Banca” do meu coração, sinto-me honrada em ter feito parte de sua vida, hoje não tenho mais a ilusão que vou encontrá-la, mas isso não faz diferença, eu já a havia encontrado há quinze anos e vivemos uma bela história de amor, seis vidas usufruindo desse amor sem fim. Minha gratidão por ter enchido meus dias de esperança depois que o Miguel se foi.
Gratidão...

Esperança
Pelança
“Banca”
*02-04-2002
+22-05-2017
.
A MORTE CHEGA CEDO

A morte chega cedo, 
Pois breve é toda vida 
O instante é o arremedo 
De uma coisa perdida.

O amor foi começado, 
O ideal não acabou, 
E quem tenha alcançado 
Não sabe o que alcançou.

E tudo isto a morte 
Risca por não estar certo 
No caderno da sorte 
Que Deus deixou aberto.
Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'

Lembranças, tempos de saúde plena.

2009
2009
Com os irmãos Juca Raphael, Miguel Arcanjo e Uriel  2009
2010
2010
Eu e ela
Agosto 2010 
Com o Juca 2010
Com Uriel e Juca 2010, tempos de saúde plena, o Juca já estava doente.
 2010
Família reunida em um domingo de agosto de 2010, só faltava a Juma.
Foto rara, Miguel comendo patê, Uriel, Esperança e Juca Raphael 2010
2011
2011
2012

Adorava catnip
Uma bela e amada trica.
Com o Miguel Arcanjo curtindo a tarde 2013

2013
Seu refúgio no banheiro (essa cesta era refúgio de todos, desde a Juma)
Olhar sereno.
2013
2014
Raridade, ela no muro com o Miguel Arcanjo
2014
Olhando os pássaros no quintal do vizinho. 2014
Adorava fazer meus livros de travesseiro.

Enquanto eu lia ou trabalhava me fazia companhia.

Minhas fotos favoritas
Minhas fotos favoritas
Favoritas
Favoritas
Favoritas






Top model das minhas fan pages
Já bem doente ração em todo lado para incentivar a comer.
2016
Julho 2016
Setembro 2016
Novembro 2016
15 novembro 2016
16 novembro 2016, no dia que fez o procedimento de eletroquimioterapia
18-11-2016
Emergência hospital 19-11-2016
20-11-2016, sem o colar.
25-11-2016, sem animo.
26-11-2016, internada às pressas.
22-03-2017
10-04-2017
Desanimada, mas sempre foi um guerreira até o último suspiro
06-05-2017
16-05-2017, eu estava cheia de esperança com um novo remédio.

ÚLTIMOS DIAS...
19-05-2017
20-05-2017
20-05-2017
21-05-2017

Esperança conta sua história
Feliz aniversário 


Comendo sozinha depois de muitos dias dando na boca

Esperança e sua paixão pelo catnip

Esperança relaxando

Feliz aniversário Esperança 15 anos  02-04-2017

Exatamente um mês antes de sua partida

Assim quero me lembrar dela, olhos lindos e brilhantes, sem câncer e sem insuficiência renal.

Um comentário:

Ana Maria A De Farias Psicanalista disse...

Ela foi acolhida e teve um lar e foi amada Teve tanto Não há lógica na dor A história é linda Ainda sofro quando lembro da história da Liza Ela tinha artrose era obesa e tinha certa deficiência eu não a vi debaixo do carro passei em cima da perninha dela A vida é magnífica Tem a natureza e eles A dor,a morte, a vulnerabilidade são cruéis Mas este amor e a vida e cuidar deles e todos os momentos com eles são gratiniciantes e é esse o valor da vida Poder cuidar e amar Depois a Liza não podia andar e se arrastava alegre p mim Meu coração se despedaçada Hoje estou com a filha dela tem 15 anos é diabética e tenho mais 2 Amei as fotos da Esperanças e todos gatinhos